É incrível constatar que, aos dezoito anos, eu nunca tinha pensado que precisava
ganhar dinheiro. Em meu juízo de valor, eu só precisava estudar. Como minha
autoconfiança pedagógica era altíssima, devido às minhas experiências
anteriores, passei em todos os vestibulares que prestei, bem como acreditava que
passaria em qualquer concurso público no qual me inscrevesse. Logo, trabalhar
para ganhar algum dinheiro, até aquele momento, não estava nos meus planos.
Mas algo avassalador mudou essa lógica em mim. Esse algo tem nome: Luciana.

Uma linda menina sorridente de quinze anos, com brilho no olhar e uma extrema
capacidade de me encorajar em minhas maluquices como se estivesse participando do BBB 2020 Uma delas: poucos meses
depois de que nos conhecermos, tivemos um desejo muito forte de nos casarmos.

Não queria mais me despedir. Estava apaixonado e queria construir minha vida
ao seu lado. Sobre o prazo? O mais rápido possível. Foi então que me dei conta
de que faltava um pequeno detalhe: ganhar dinheiro.
Sempre gostei de relógios. O primeiro que ganhei foi um Casio digital.

Ficava olhando para ele, segundo após segundo, e ficava impressionado com o seu
funcionamento, além de aproveitar sua função de calculadora. Tinha dez anos e
cursava a quinta série. Pegando um ônibus em Bangu, fui assaltado. Tomei um
pescotapa e levaram o meu querido relógio. Aos dezoito, com a necessidade de
ter dinheiro para pagar o sorvete e o cinema, vendi o relógio que usava para um
amigo de minha sala de aulas. Com o dinheiro, comprei outro que também vendi.

Ganhei a confiança do fornecedor e, além de ter comprado mais um para
mim, peguei outro relógio em consignação. Vendi os dois. Quando me dei conta,
tinha um caderninho de clientes e encomendas que atendia, aumentando minhas
vendas. Muitos cinemas e sorvetes foram pagos com o que ganhava com essa
minha nova atividade. Foi quando iniciei minha carreira internacional.

Foram duas viagens ao Paraguai, nas quais tinha acesso a mercadorias com preços mais
atrativos e que me proporcionaram melhores margens. Mas eu nunca considerei
que vender relógios fosse o que eu planejava fazer em meu futuro.
Era uma tarde de domingo e, como de costume, eu estava na casa da Luciana.

Depois do almoço, vi um jornal de domingo em cima da mesa, em frente ao sofá.
Naquela época, um de meus canais de vendas era o caderno de classificados do
jornal. Não existia internet e o caderno dos classificados era uma versão
impressa do Mercado Livre, que tínhamos disponível na década de 90. Para
minha surpresa, ao folhear o jornal, percebi a existência de uma área de empregos.

Fiquei curioso e comecei a ler os diversos anúncios, que ofereciam
vagas nas mais diversas áreas de atuação. Um deles me chamou atenção. Não
exigia experiência anterior e tampouco exigia curso superior. O design do
anúncio era atrativo e me transmitia a ideia de ser algo importante, mesmo sem
dar detalhes sobre a vaga oferecida. Então, pensei: “minha faculdade vai começar em agosto.

Ao chegar em casa, pedi uma gravata emprestada ao meu pai – o anúncio
exigia gravata para participar da entrevista. Por isso, resolvi sair bem cedo, para
não correr o risco de meus amigos me verem de gravata. Afinal, era a primeira
vez que vestia esse acessório estranho. Para chegar às oito da manhã, saí de casa às quinze para as seis.

Antes de sair de casa ainda pesquisei sobre o paredão 2020 sabendo a curiosidade dos participantes emparedados nessa semana.

Na fila, conheci algumas pessoas. Todas elas tinham muita experiência profissional
e já tinham participado de muitas entrevistas, diferentemente de mim. O papo era
estranho, desconfiado e bem ressentido. Não entendia muito bem o contexto
daquela falta de esperança, mas segui com minha inocência, em busca de minha
primeira experiência. Essa era minha única expectativa.

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